Thursday, March 22, 2012

...

"Chamam por mim as águas,
Chamam por mim os mares.
Chamam por mim, levantando uma voz corpórea, os longes,
As épocas marítimas todas sentidas no passado, a chamar."

Um Curso em Milagres - Lições Finais

"1. As nossas lições finais estarão livres de palavras quanto possível. Nós só as usamos no início da nossa prática e apenas para lembrar-nos de que buscamos ir além delas. Voltemo-nos para Aquele Que nos mostra o caminho e faz com que os nossos passos sejam seguros. Entregaremos estas lições a Ele, assim como damos a Ele nossas vidas a partir de agora. Pois não queremos mais voltar a acreditar no pecado que fez com que o mundo parecesse feio e sem segurança, agressivo e destruidor, perigoso em todos os seus caminhos e traiçoeiro além da esperança da confiança e do escape à dor.


2. O Seu caminho é o único para achar a paz que Deus nos deu. É o Seu caminho que todos têm de percorrer no final, pois esse é o fim designado pelo próprio Deus. No sonho do tempo, esse fim ainda parece estar longe. Mas, na verdade, já está aqui; já está nos servindo como um guia benevolente no caminho a seguir, ligamos juntos o caminho que a verdade nos aponta. E sejamos guias para muitos dos nossos irmãos que buscam o caminho, mas não o acham.


3. E a esse propósito dediquemos as nossas mentes, dirigindo todos os nossos pensamentos para servir à função da salvação. A nós é dado o objectivo de perdoar o mundo. É a meta que Deus nos deu. É o Seu fim para o sonho que buscamos, e não o nosso. Pois não falharemos em reconhecer tudo o que perdoamos como parte do próprio Deus. E assim a Sua memória é dada de volta a nós, completa e completamente.


4. É nossa função lembrar-nos Dele na terra e nos é dado ser a Sua própria plenitude na realidade. Portanto, não nos esqueçamos de que a nossa meta é compartilhada, pois essa é a lembrança que contém a memória de Deus e nos indica o caminho para Ele e para o Céu da Sua paz. e deixaremos de perdoar o nosso irmão que pode nos oferecer isso? Ele é o caminho, a verdade e avida que nos mostra o caminho. Nele reside a salvação, oferecida a nós através do nosso perdão que é dado a ele.


5. Não terminaremos esse ano sem a dádiva que o nosso Pai prometeu ao Seu Filho santo. Estamos perdoados agora. E estamos salvos de toda a ira que pensávamos pertencer a Deus e descobrimos ser um sonho. Somos restituídos à sanidade em que compreendemos que a raiva é insana, o ataque é louco e a vingança uma mera fantasia tola. Fomos salvos da ira, porque aprendemos que estávamos equivocados. Nada mais do que isso. E pode um pai ficar raiva do seu filho por que ele falhou em compreender a verdade?


6. Vamos a Deus com honestidade e dizemos que não havíamos compreendido e pedimos que Ele nos ajude a aprender as Suas lições através da Voz do Seu próprio Professor. Magoaria Ele o Seu próprio Filho? Ou apressar-Se-ia a responder-lhe, dizendo: "Esse é o Meu Filho e tudo o que tenho é dele"? estejas certo de que Ele responderá assim, pois estas são as Suas palavras para ti. E mais do que isso ninguém jamais pode ter, pois nestas Palavras está tudo o que existe e tudo o que existirá através dos tenpos por toda a eternidade."

Lição 360 de Um Curso em Milagres

Quiz o Pai que eu chegasse ao fim do livro de estudante num dia de início de ciclo. The Time is NOW!

"Que a paz esteja comigo, o Filho santo de Deus.
Que a paz esteja com o meu irmão, que é um comigo.
Que o mundo todo seja abençoado pela paz através de nós."

Leituras Recomendadas

Muito Bom! O que se aprende de História de Portugal aqui vale bem a pena a leitura.


"Quando Jonas foi engolido pelo «grande peixe», tentava apenas escapar para o território que é agora Portugal. Foi aqui que Aníbal encontrou os guerreiros, as armas e o ouro que tornaram possível a sua marcha sobre Roma; e Júlio César, a fortuna que lhe permitiu a s conquistas da Gália e da Inglaterra. Durante a Alta Idade Média, mais a norte, os governantes árabes integraram Portugal na civilização mais avançada do mundo. Após a conquista de Lisboa, pelos Normandos, o novo Portugal levou Veneza à bancarrota e tornou-se a nação mais rica da Europa. Antes de ser eleito Papa, com o nome de João XXI, Pedro Hispano, nascido em Lisboa, escreveu um dos primeiros compêndios modernos sobre Medicina que, um século mais tarde, era livro de consulta obrigatória em quase toda a Europa. Os Portugueses levaram as túlipas, o chocolate e os diamantes para a Holanda, introduziram na Inglaterra o hábito do chá das cinco e deram a Bombaim a chave do Império. Ensinaram a África a proteger-se contra a malária e levaram carregamentos de escravos para a América. Introduziram, na Índia, o ensino superior, o caril e as chamuças e, no Japão, a tempura e as armas de fogo."...

Wednesday, March 21, 2012

Caravelas

"Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
De um estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!
Caravelas doiradas a bailar...

Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!..."

F.E.

O verdadeiro poder (1)

Saturday, March 17, 2012

Plantar uma árvore...



Hoje foi uma manhã intensa e feliz :-)

Thursday, March 15, 2012

A alimentação do corpo emocional

7 Pecados Capitais

"Certo dia, um casal ao chegar do trabalho encontrou algumas pessoas dentro de sua casa. Achando que eram ladrões, marido e mulher ficaram assustados, mas um homem forte e saudável, com corpo de halterofilista disse:
- “Calma pessoal! Nós somos velhos conhecidos e estamos em toda parte do mundo”.
- Mas quem são vocês? – pergunta a mulher.
- Eu sou a Preguiça – responde o homem másculo.
- Estamos aqui para que vocês escolham um de nós para sair definitivamente da vida de vocês.
- Como pode você ser a preguiça se tem um corpo de atleta que vive malhando e praticando esportes? – indagou a mulher.
- A preguiça é forte como um touro e pesa toneladas nos ombros dos preguiçosos. Com ela, ninguém pode chegar a ser um vencedor.
Uma mulher velha curvada, com as peles muito enrugadas, que mais parecia uma bruxa diz:
- “Eu, meus filhos, sou a Luxúria”.
- Não é possível! – diz o homem.
- Você não pode atrair ninguém com essa feiura.
- Não há feiura para a luxúria, queridos. Sou velha porque existo há muito tempo entre os homens. Capaz de destruir famílias inteiras, perverter crianças e trazer doenças para todos, até a morte. Sou astuta e posso me disfarçar na mais bela mulher.
E um malcheiroso homem, vestindo roupas maltrapilhas, que mais parecia um mendigo, diz:
- “Eu sou a Cobiça, por mim muitos já mataram, por mim muitos abandonaram famílias e pátria. Sou tão antigo quanto a Luxúria, mas eu não dependo dela para existir”.
- E eu, sou a Gula, diz uma lindíssima mulher com um corpo escultural e cintura finíssima. Seus contornos eram perfeitos, e tudo no corpo dela tinha harmonia de forma e movimentos.
Assustam-se os donos da casa, e a mulher diz:
- “Sempre imaginei que a gula seria gorda”.
- Isso é o que vocês pensam! – responde ela. Sou bela e atraente, porque se assim não fosse, seria muito fácil livrarem-se de mim. Minha natureza é delicada, normalmente sou discreta, quem tem a mim não se apercebe, mostro-me sempre disposta a ajudar na busca da luxúria.
Sentado em uma cadeira num canto da casa, um senhor, também velho, mas com o semblante bastante sereno, com voz doce e movimentos suaves, diz:
- “Eu sou a Ira. Alguns me conhecem como cólera. Tenho muitos milênios também. Não sou homem, nem mulher, assim como meus companheiros que estão aqui”.
- Ira? Parece mais o vovô que todos gostariam de ter! – diz a dona da casa.
- E a grande maioria me tem! – responde o vovô. Matam com crueldade, provocam brigas horríveis e destroem cidades quando me aproximo. Sou capaz de eliminar qualquer sentimento diferente de mim, posso estar em qualquer lugar e penetrar nas mais protegidas casas. Pareço calmo e sereno para mostrar-lhes que a Ira pode estar no aparentemente manso. Posso também ficar contido no íntimo das pessoas sem me manifestar, provocando úlceras, câncer e as mais temíveis doenças.
- Eu sou a Inveja. Faço parte da história do homem desde a sua criação, diz uma jovem que ostentava uma coroa de ouro cravada de diamantes, usava braceletes de brilhantes e roupas de fino pano, assemelhando-se a uma princesa rica e poderosa.
- Como inveja, se é rica e bonita e parece ter tudo o que deseja? – diz a mulher da casa.
- Há os que são ricos, os que são poderosos, os que são famosos e os que não são nada disso, mas eu estou entre todos. A inveja surge pelo que não se tem e o que não se tem é a felicidade. Felicidade depende de amor, e isso é o que de mais carece a humanidade… Onde eu estou, está também a Tristeza.
Enquanto os invasores se explicavam, um garoto, que aparentava cerca de cinco a seis anos, brincava pela casa. Sorridente e de aparência inocente, característica das crianças, sua face de delicados traços mostravam a plenitude da jovialidade, olhos vívidos…
- E você, garoto, o que faz junto a esses que parecem ser a personificação do mal?
O garoto responde com um sorriso largo e olhar profundo “Eu sou o Orgulho”.
- Orgulho? Mas você é apenas uma criança! Tão inocente como todas as outras.
O semblante do garoto tomou um ar de seriedade que assustou o casal, e ele então diz:
“O orgulho é como uma criança mesmo, mostra-se inocente e inofensivo, mas não se enganem, sou tão destrutível quanto todos aqui, quer brincar comigo?”.

A Preguiça interrompe a conversa e diz:
- Vocês devem escolher quem de nós sairá definitivamente de suas vidas. Queremos uma resposta.
O homem da casa responde:
- Por favor, deem dez minutos para que possamos pensar.
O casal se dirige para seu quarto e lá fazem várias considerações. Dez minutos depois
retornam.
- E então? – pergunta a Gula.
- Queremos que o Orgulho saia de nossas vidas.
O garoto olha com um olhar fulminante para o casal, pois queria continuar ali. Porém, respeitando a decisão dirige-se para a saída.
Os outros, em silêncio, iam acompanhando o garoto quando o homem da casa pergunta:
- Hei! Vocês vão embora também?
O Menino, agora com ar severo e com a voz forte de um orador experiente diz:
- Escolheram que o Orgulho saísse de suas vidas e fizeram a melhor escolha, porque onde não há Orgulho, não há Preguiça, pois os preguiçosos são aqueles que se orgulham de nada fazerem para viver, não percebendo que na verdade vegetam.
- Onde não há Orgulho, não há Luxúria, pois os luxuriosos têm orgulho de seus corpos e julgam-se merecedores.
- Onde não há Orgulho, não há Cobiça, pois os cobiçosos têm orgulho das migalhas que possuem, juntando tesouros na terra e invejando a felicidade alheia, não percebendo que na verdade são instrumentos do dinheiro.
- Onde não há Orgulho, não há Gula, pois os gulosos se orgulham de suas condições e jamais admitem que o são, arrumam desculpas para justificar a Gula, não percebendo que na verdade são marionetes dos desejos.
- Onde não há Orgulho, não há Ira, pois os irosos com facilidade destroem aqueles que, segundo o próprio julgamento, não são perfeitos, não percebendo que na verdade sua ira é resultado de suas próprias imperfeições.
- Onde não há Orgulho, não há Inveja, pois os invejosos sentem o Orgulho ferido ao verem o sucesso alheio seja ele qual for. Precisam constantemente superar os demais nas conquistas, não percebendo que na verdade são ferramentas da insegurança.
Saíram todos sem olhar para trás e, ao baterem a porta, um fulminante raio de luz invadiu o recinto."

In Universo Natural

Wednesday, March 14, 2012

Pedra Filosofal



A minha música preferida na infância. E o sonho, é tela, é cor, é pincel!

Saturday, March 10, 2012

Free Tibet



St. Vincent - "Cruel"

Beirut - Vagabond

Thursday, March 08, 2012

Olhai os lírios do campo

estava no campo sim...espero que se dê bem por aqui

Povo que lavas no rio...

Mulher


"Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
– Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra – invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira – para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
– Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
– Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
– o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
– E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
– No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
– Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
– aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
– no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo."

Herberto Helder, in Ofício Cantante