Tuesday, May 24, 2005

A Liberdade

E um orador disse:
- Fala-nos da Liberdade.

E ele respondeu:
- Às portas da cidade, e nos vossos lares, dei convosco prostrados em adoração da vossa própria liberdade,

Como escravos que se humilham diante dum tirano e que o glorificam enquanto ele os destrói.

Sim, no bosque do templo e na sombra da cidadela vi os mais livres que vós usarem a sua liberdade como jugo e como algemas.

Meu coração sangrou dentro de mim; pois não sabereis ser livres senão quando o próprio desejo de chegar à liberdade se tornar para vós um arnês e quando deixardes de falar da liberdade como de um fim e de uma conclusão.

Sereis livres de facto não quando os vossos dias decorrerem sem cuidados e as vossas noites sem desejos e sem fadigas, mas antes quando todas essas coisas cercarem a vossa vida e vos elevardes acima delas, nus e libertos.

Mas como podereis estar acima de vossos dias e de vossas noites, se não quebrardes as cadeias que na alvorada do vosso uso da razão fizestes pesar sobre a vossa hora do meio dia? De facto, o que chamais liberdade é a mais forte dessas cadeias, ainda que os seus anéis vos deslumbrem brilhando ao sol. E tudo o que quereis afastar para ficardes livres, que é, senão fragmentos de vós mesmos?

Se é uma lei injusta que quereis abolir, tal lei foi escrita pela vossa mão na própria testa. Não podereis apagá-la queimando os vossos livros de leis nem lavando as frontes dos vossos juízes, ainda que entorneis todo o mar em cima deles.

E se é um tirano quem quereis destronar, vede, antes de tudo, se o trono dele em vós está bem destruído. Porque, como pode um déspota dominar os livres e altivos, se não houver tirania na liberdade desses e vergonha na sua própria altivez?

E se é a inquietação que quereis expulsar, tal inquietação foi escolhida por vós e não tanto imposta de fora.

E se quereis dissipar o medo, a sede desse medo é o vosso coração e não a mão que vos assusta.

De fato, todas as coisas se movem no mais íntimo do vosso ser, num constante semi-abraço, tanto as desejadas quanto as temidas, as repugnantes e as tentadoras, aquelas que buscais como aquelas de que fugis.

Tais coisas movem-se dentro de vós como luzes e sombras, em pares estreitamente unidos. E quando a sombra se debilita e desaparece, a luz que resta torna-se sombra de uma nova luz.

E assim a vossa liberdade, desembaraçada de estorvos, torna-se ela própria embaraço de uma liberdade maior.

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