Wednesday, July 20, 2005

para reflectir...

O relógio acima do balcão de informações do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro está marcando quinze minutos para as cinco. Estou tão ansioso e o meu coração bate tão forte que dá para ouvi-lo. Dentro de quinze minutos eu conhecerei a mulher que tem sido o meu único pensamento há quase um ano, a mulher que eu nunca vira mas cujas palavras em suas cartas me tinham transformado num romântico.

Agora eu vou ouvir a sua voz, abraçá-la demoradamente. Faltam dez minutos para as cinco. Uma mulher passa por mim. Sorri. Será que é ela? Traz um ramalhete de flores do campo nas mãos, como havíamos combinado. Não, não deve ser ela, a mulher deve ter 40, 45 anos e Juliana dissera-me que tinha 25.

Lembrei-me então de um caderno que encontrara numa das mesas da praça da alimentação, no Plaza Shopping, em Niterói. E em todo o caderno havia anotações, pequenas poesias, o esboço de um conto; tudo numa bonita letra feminina. O nome dela estava escrito no caderno: Juliana Marques. Procurei no catálogo telefônico do Rio de Janeiro e encontrei o seu endereço. Escrevi-lhe e ela respondeu.

Durante 6 meses ela me respondera assiduamente. Mesmo quando eu não escrevia ela continuava escrevendo, eu tinha certeza de que a amava e de que era correspondido. Ela, no entanto, sempre tinha recusado os meus insistentes pedidos para que me enviasse uma foto, se bem que eu já tivesse mandado o meu retrato. Dizia que: "Se o amor que você sente por mim for verdadeiro, a minha aparência pouco importa. Suponhamos que eu seja feia — e você deve achar que isso é o mais provável, então eu viveria na incerteza de que você só me continuasse escrevendo para não me magoar, por se sentir só e não ter com quem dividir as alegrias e as tristezas. Suponha que eu seja bonita. Teria sempre a idéia de que você estava interessado apenas na beleza, no meu corpo. Por isso não mandarei a minha foto. Quando nos encontrarmos, então me verá e poderá decidir."

Um minuto para as cinco… folheio as páginas de uma revista nervosamente. E neste momento o meu coração dispara.

Uma jovem caminha em minha direção. É uma bela morena; seus cabelos pretos, compridos e ondulados, dão-lhe uma aparência sedutora. Os olhos são insinuantes; os lábios para serem beijados. O vestido curto e justo que ela usa mostra a perfeição de seu lindo corpo. É a verdadeira imagem do desejo.
Ela pára diante de mim.
— Espera por alguém? pergunta com um sorriso provocante.
— Sim… sim, espero…
— Você está aqui há muito tempo?
— Não, cheguei há alguns minutos. — respondo, na expectativa de que ela seja Juliana, mesmo não vendo nenhum ramalhete de flores em suas mãos.

A jovem olha impaciente para todos os lados. Ajeita os cabelos. Olha para o relógio de pulso, torna a olhar.
— Pelo seu nervosismo, vejo que esse é o primeiro encontro.
— Sim, é. Nos conhecemos apenas por carta… Mas pela demora, talvez ele não venha mais. Acho que vou desistir…
— Não, não vá embora. Fique mais um pouco. — digo, começando a interessar-me por ela

A impaciência da moça transforma-se em desânimo. "Vamos, diga que você é Juliana e eu a abraçarei, a beijarei como você merece." — falo para mim mesmo
A bela morena sorri com ar tristonho e diz que não quer tomar mais o meu tempo. Vê a hora no relógio de pulso, dá um "tchau" melodioso e vai embora.
Tento segui-la, mas desisto.

Saio caminhando devagar pelo saguão do aeroporto, pensando na oportunidade que perdera de tentar uma aproximação mais íntima com a bela morena. "Por que não perguntei o seu nome?" "Se ela não disse é porque não queria que eu soubesse." "Além do mais, estava esperando o namorado e não iria se interessar por mim."
Deixo de pensar na imagem do desejo e volto para o mesmo lugar, pois é um local que dá para ver quem entra e quem sai do aeroporto.
Então vejo Juliana. É ela, só pode ser ela!

É a mesma mulher que passara por mim. Está parada perto do balcão de informações, os cabelos são curtos, meio grisalhos, na altura dos ombros; quem sabe, tingidos, sei lá. Usa um vestido bege e calça sapatos de salto baixo. É simpática; não tão jovem quanto a outra. Mas noto que agora traz dois ramalhetes de flores do campo.

Sinto-me como se estivesse sendo dividido em dois, tão forte é a minha vontade de sair à procura da morena e tão profundo o impulso que me impele para aquela mulher que tanto fantasiou a minha imaginação. E agora ela está ali. Posso ver o seu rosto suave e compreensivo e que os olhos verdes têm um brilho de sinceridade.

Não hesito. Minhas mãos apertam o caderno com que me farei reconhecer. Estou meio atônito com tudo isso.
Suspiro profundamente, cumprimento a mulher e estendo o caderno para ela.
— Eu sou Gustavo, e você… deve ser Juliana Marques. Estou feliz por ter vindo encontrar-se comigo. Posso… posso convidá-la para lanchar?

A mulher sorri, agradecendo o convite. Os seus olhos brilham com mais intensidade. Confesso que nunca vira uns olhos verdes tão cristalinos.
— Eu sei o que está acontecendo, mas eu não sou a pessoa que você está procurando, respondeu.

Aquela moça com quem você falou é a verdadeira Juliana. Ela me pediu para segurar este ramalhete. E disse que, se você parasse para conversar comigo, lhe dissesse que ela o está esperando no free shop do aeroporto. Juliana — continua — é minha sobrinha. Ela combinou tudo isso para testá-lo. Como sou uma solteirona romântica, aceitei. O ramalhete que eu trazia nas mãos quando passei por você pela primeira vez, foi para chamar a sua atenção; na segunda vez, junto do balcão de informações, eu estava com o outro ramalhete que Juliana me pediu para segurar. Ela está apaixonada, e queria ter certeza de que você falava a verdade quando dizia que a amava.

— Então… aquela morena com quem conversei é a verdadeira Juliana?!
— Exatamente, meu querido! É melhor você ir correndo abraçá-la, porque ela pode querer desistir de verdade.
Saio apressado para o encontro mais importante da minha vida. Olho para trás e vejo a tia de Juliana acenando-me com os dois ramalhetes de flores do campo.

Wednesday, July 13, 2005

" Dois Anjos "

Dois anjos viajantes pararam para passar a noite na casa de uma família muito rica. A família foi rude e recusou aos anjos o pernoite no quarto de hóspedes da mansão. Foi-lhes oferecido o porão.

Ao fazerem sua cama no chão frio o anjo mais velho viu um buraco na parede e o consertou. Quando o anjo mais novo perguntou porque, o anjo mais velho respondeu: "As coisas nem sempre são o que parecem ser".

Na noite seguinte os dois foram buscar repouso na casa de um casal de fazendeiros muito pobre, mas muito hospitaleiro. Depois de dividir com eles o pouco alimento que tinham os anjos puderam dormir na cama do casal e repousar bem por uma noite. Quando o sol nasceu na manhã seguinte os anjos acharam o casal chorando muito. Sua única vaca, de cujo leite tiravam o seu único sustento, estava estendida morta no chão.

O anjo mais novo ficou enfurecido e perguntou ao mais velho: "Como você pode deixar isto acontecer? O primeiro homem tinha tudo e ainda assim você o ajudou, retrucou acusando-o. A segunda família tinha pouco mas estava disposta a dividir tudo e você deixou que a vaca deles morresse".

"As coisas nem sempre são o que parecem ser", o anjo mais velho retrucou.

Quando estávamos no porão, disse o anjo mais velho, eu percebi que havia ouro estocado no buraco da parede. Como o proprietário era tão obcecado e ganancioso e incapaz de dividir sua fortuna, eu lacrei a parede para que ele não pudesse achá-lo. Na noite passada quando dormimos na cama dos fazendeiros o anjo da morte veio buscar a esposa dele, e eu lhe dei a vaca no lugar dela. "As coisas nem sempre são o que parecem ser".

Às vezes isto é exatamente o que acontece quando as coisas não se desenrolam como esperamos. Se você tem fé, só precisa acreditar que tudo o que acontece é em seu benefício. Você não saberá de imediato, mas certamente descobrirá isto mais tarde.

Monday, July 04, 2005

" Ouvindo Corações "

Grande sabedoria é saber olhar a vida com olhos de ver. Enxergar as coisas de maneira diversa da habitual. Ir além das aparências.
Nós não somos apenas ossos, músculos, tendões, unhas, cabelos, sangue. Somos tudo isso e mais a essência, o espírito.
É essa essência que nos faz ficar doentes ou recuperar a saúde de uma doença sem bons prognósticos.
Assim, não se pode imaginar medicina sem os remédios, bisturis, equipamentos, poções. Mas, a essência não pode ser esquecida.

Dr. Josh era um talentoso cirurgião oncológico. Depois de alguns anos, começara a ter problemas.
Mal conseguia se levantar da cama todas as manhãs porque sabia que iria ouvir as mesmas queixas, dia após dia.
De tanto ouvir falar de dores e assistir ao sofrimento, deixara de se importar.
Para que tudo aquilo, afinal? Muitos pacientes ele nem conseguia que se recuperassem.

Então, uma amiga lhe observou que ele precisava ter novos olhos. O importante não era mudar de hospital, de atividade. Era ele olhar o mesmo cenário, de forma diferente.
E lhe sugeriu que, a cada dia, durante 15 minutos, ele rememorasse os acontecimentos e respondesse a si mesmo: "o que me surpreendeu hoje? O que me perturbou ou me emocionou hoje? O que me inspirou hoje?"
Ele ficou em dúvida, mas tentou. Três dias depois, a única resposta que conseguia dar para as três questões era nada, nada, nada.

A amiga lhe sugeriu que ele olhasse as pessoas ao seu redor como se fosse um escritor, um jornalista, ou quem sabe, um poeta. Procurasse histórias.
Seis semanas depois, Josh encontrou-se com ela outra vez e lhe falou das suas experiências. Estava mudado. Sereno.
Nos primeiros dias, a única coisa que o surpreendera tinha sido o tumor de algum paciente que diminuía ou regredira poucos centímetros.
O mais inspirador, uma droga nova, ainda em experiência, a ser ministrada aos pacientes.

Certo dia, observando uma mulher de apenas 38 anos, que ele havia operado de um câncer no ovário, tudo mudou.
Ela estava muito debilitada pela quimioterapia. Sentada em uma cadeira, tinha ao seu lado as filhas de quatro e seis anos. As duas meninas estavam bem arrumadas, felizes e amadas. "Como ela fazia aquilo?"
Aproximou-se e lhe disse que a achava uma mulher maravilhosa, uma mãe fora do comum. Mesmo depois de tudo o que havia passado, ele observava que havia dentro dela algo muito forte. Uma força que a estava curando.

A partir daí, ele começou a perguntar aos pacientes o que lhes dava forças na sua luta contra a doença.
As respostas eram muito diversas. O importante é que ele descobriu que tinha interesse em ouvir.
Se antes já era um excelente cirurgião, deu-se conta de que agora, e somente agora, as pessoas vinham lhe agradecer pela cirurgia. Algumas até lhe davam presentes.
Mudou o seu relacionamento com os doentes. Contando tudo isso para a amiga, ele retirou do bolso um estetoscópio com seu nome gravado e o mostrou, comovido. Presente de um paciente.

Quando a amiga lhe perguntou o que é que iria fazer com aquilo, ele sorriu e respondeu: "Ouvir os corações, Rachel. Ouvir os corações."
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Todas as vidas têm um significado. Encontrar o sentido das coisas nem sempre é fazer algo diferente. Por vezes, é somente enxergar o cotidiano, a rotina de uma forma diferente.
A vida pode ser vista de várias maneiras: com os olhos, com a mente, com a intuição.
Mas a vida só é verdadeiramente conhecida por aqueles que falam e ouvem a linguagem do coração.