Friday, December 07, 2007

ASAE e as leis da treta

Reproduzo aqui um texto de Antonio Barreto que me chegou por mail e que vem de encontro ao ridiculo que são as leis do homem e especialmente algumas da UE!!

«Estão doidos!?!?! A meia dúzia de lavradores que comercializam directamente os seus produtos eque sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros quesobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois dachegada da fast food, para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam no domicílio pratos e "petiscos", a fim de os vender no café ao ladoe que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podemrezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente aos cafés e restaurantes do bairro sopas, doces, compotas,rissóis e croquetes podem sonhar com outros negócios. Os artesãos quecomercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados. A solução final vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores,os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará.Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitasharmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primasindustriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado.Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos maisqualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sobtutela carismática do ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país,mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel daração e pelos impérios do açúcar.Em frente à faculdade onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam àscartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar! Nas esplanadas, a partir deJaneiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.Vender, nas praias ou nas romarias, bolas-de-berlim ou pastéis de nata quenão sejam industriais e embalados? Proibido. Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos doszeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levamtudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos. Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, aolado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde,coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido. Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido. Trazer da terra, na estação, cerejas emorangos? Proibido. Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para oazeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas. Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas,alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido. Comprar um bolo-reicom fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido. Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais. É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcasespeciais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos. Servirareias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há 30 anos? Proibido.As regras, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento doestabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para asescrever. Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto. Na cozinha, tem dehaver uma faca de cor diferente para cada género. Não pode haver cruzamentode circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas. No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com umaetiqueta "produto não válido", mesmo que vazia. Cada vez que se corta umafatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação. Não se pode guardar pãopara, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda. Aproveitar outrassobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido. Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. Astorneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica. As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duasvezes por dia e devidamente registadas. As temperaturas dos frigorífi cos edas arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certifi cado. Usar colheres de paupara cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser deplástico ou de aço. Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados dasmesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a datae a hora do corte. O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, unspacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.Tudo isto, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linhada frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estasregras, fiscalizar e ordenar as nossas casas.Para nosso bem, pois claro. » António BarretoRetrato da Semana - in Publico 25.11.2007

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