Wednesday, June 09, 2010

Reflexões IV

“O conceito de unidade não tem nada de original. No entanto, a pergunta que poucas pessoas alguma vez fazem é: Sou um com o quê? Embora a maior parte daqueles que fazem esta pergunta digam que a resposta é Deus, cometem depois o erro de supor que eles e este Universo foram criados nas suas formas actuais pelo Divino. Isso não é verdade e deixa aquele que procura numa posição em que mesmo que ele domine a mente, como o Buda realmente fez, não irá mesmo assim alcançar Deus de uma forma permanente. Sim, ele irá conseguir a unidade com a mente que fez as ondas de dualidade. Esta mente, num não lugar que transcende todas as tuas dimensões, está completamente fora do sistema de tempo, espaço e forma. Esta é a extensão lógica e correcta da não-dualidade, contudo ainda não é Deus. Na realidade é um beco sem saída. Ou, melhor ainda, um começo sem saída. Isto explica porque o Budismo, que é obviamente a religião psicologicamente mais sofisticada, não trata da questão de Deus. É porque o Buda não tratou da questão de Deus quando ainda estava no corpo a que chamas Buda. É também a razão porque iremos fazer distinções entre não-dualismo e não-dualismo puro. Quando o Buda disse: “Estou acordado”, ele queria dizer que compreendia que não era de facto um participante da ilusão, mas o criador de toda a ilusão.

Mesmo assim, há outro passo que é exigido, em que a mente que é criadora da ilusão escolhe completamente contra si própria a favor de Deus. Claro que alguém com o tremendo talento de Buda teve um vislumbre disso, passando rapidamente para exactamente a mesma consciência que o J. Mas isto não foi feito pelo Buda numa época em que o mundo nem sequer conhece. Não é inédito que as pessoas tenham conseguido o nível de iluminação do J na obscuridade, e que o mundo tenha pensado que o conseguiram numa época mais famosa quando de facto não o fizeram. A maior parte das pessoas que se aproxima da verdadeira mestria espiritual não está interessada em ser líder. Ao mesmo tempo, há pessoas que são altamente visíveis quando, em vez de serem verdadeiros mestres da espiritualidade e da metafísica, estão apenas a exibir os sintomas de uma personalidade extrovertida.

(...)
GARY: Então, o não dualismo é como velhor ensinamento de que vivemos como se estivéssemos neste mundo, mas a nossa atitude é a de dois mundos separados, o mundo da verdade e o mundo da ilusão, só que a verdade é verdadeira e nada mais é verdadeiro.

ARTEN: Sim, um aluno delicioso. Mesmo assim, as pessoas cometem o erro de pensarem que a ilusão foi criada pela verdade. Por isso, ainda fazem o erro de dar legitimidade à ilusão em vez de desisitirem dela. Não podes esperar quebrar o ciclo do nascimento e morte enquanto mantiveres esta confusão. A mente inconsciente dá-se a tanto trabalho para evitar Deus que tu irás ignorá-lo, ou, o que é mais provável ainda, tentar involuir o não-dualismo em dualismo. Um exemplo extraordinário disto é aquilo que aconteceu com um dos grandes ensinamentos da filosofia indiana, chamado os Vedas.

Os Vedas são um documento espiritual não-dualista que ensina que a verdade do Brâmane é tudo o que realmente existe e que tudo o resto é ilusão falsa, nada, zero ponto final. O Vendanta foi sabiamente interpretado por Shankara como Advaita ou não-dualista. Bastante bom, certo? Bem, não para novecentas e noventa e nove pessoas em mil. Há várias outras interpretações mais importantes, mais populares e não verdadeiras do Vedanta que representam tentativas para destruir a metafísica não-dualista e transformá-lo naquilo que ele não é, incluindo o esforço de Madva para agarrar no não-dualismo não qualificado e transformá-lo em dualismo não qualificado.

É aqui que vemos um paralelo espantoso entre o que aconteceu ao Hinduísmo e o que aconteceu aos ensinamentos do J. O J ensinou o não-dualismo puro, interpretado pelo mundo como dualismo. O Vedanta era não-dualista, interpretado pelo mundo como dualismo. Hoje, vocês têm duas religiões enormes que são controladas por uma maioria reaccionária, e ambas competem pelos corações e as mentes de um mundo que não existe – uma religião é o símbolo de um império baseado no dinheiro e a outra religião o símbolo de um governo muito possivelmente capaz de se envolver numa guerra nuclear, juntamente com o igual reaccionário vizinho muçulmano.

Estas palhaçadas podem servir para a maioria do planeta, mas não têm de servir a ti. A atitude do não-dualismo diz-te que aquilo que estás a ver não é a verdade. Se não é a verdade, então como é que podes julgar e dar realidade àquilo que não está lá? E se não está lá, para que é que precisas de o adquirir, ou de fazer uma guerra por ele, ou de o tornar mais sagrado ou mais valioso do que qualquer outra coisa? Como é que um bocado de terra no planeta pode ser mais importante do que outro? O que é que interessa o que acontece numa ilusão, a não ser que tenhas dado à ilusão um poder que ela não tem nem pode ter? Como é que pode ter importância o resultado que é produzido numa situação particular a não ser que tenhas feito um ídolo falso dessa situação? Porque é que o Tibete é mais importante do que qualquer outro lugar?

Sei que ainda não queres ouvir isto, mas não interessa que acções fazes ou não fazes no mundo embora a tua maneira de ver e a atitude que manténs enquanto te empenhas numa acção interesse e muito. Claro, enquanto pareças existir no mundo da multiplicidade, irás sentir algumas preocupações terrenas temporárias e nós não tencionamos ignorar as tuas necessidades no mundo. O Espírito santo não é estúpido e, como já dissemos, a tua experiência é que estás aqui. Há uma maneira de passar a vida fazendo muitas das mesmas coisas que farias de qualquer maneira, mas agora não as irás fazer sozinho. E assim aprenderás que nunca estás sozinho.

Por isso, não estamos a sugerir que não devas ser prático e que não tomes conta de ti. É só que o teu verdadeiro patrão não será deste mundo. Nem sequer tens que dizer seja a quem for que não és o patrão, se não o quiseres fazer. Se quiseres ter o teu próprio negócio e parecer que és o patrão, tudo bem. Faz com que ele funcione da melhor maneira para que te sintas guiado. Sê bom para ti próprio. É com a tua atitude mental que nos preocupamos, não com aquilo que pareces fazer. Irás acabar por ver tudo o que fazes para ganhar a vida como uma ilusão para te apoiar na ilusão, sem de facto apoiar a ilusão.

Daquilo que dissemos, deves ficar com a idéia de que, com a atitude do não-dualismo, está a adquirir a capacidade de pôr em causa todos os teus juízos e crenças. Agora compreendes que não existe nada dessa coisa de um sujeito e de um objecto, só há unidade. O que tu ainda não sabes é que isto é uma imitação da unidade genuína, pois poucos aprenderam a fazer a distinção entre ser um com a mente que aparentemente se separou de Deus e ser um com Deus. A mente tem que Lhe ser devolvida. No entanto, o não dualismo tradicional é um passo necessário no caminho, pois aprendeste que de facto não podes separar uma coisa de outra coisa qualquer nem podes separar nada de ti.

Como já foi sugerido anteriormente, esta idéia está bem expressa pelos modelos da física quântica. A física de Newton defendia que os objectos eram reais e exteriores a ti com uma existência separada. A física quântica demonstra que isso não é verdade. O universo não é aquilo que tu pensas que é; tudo o que parece existir é de facto um pensamento inseparável. Nem sequer podes observar uma coisa sem causar uma mudança nela a nível sub-atómico. Tudo está na tua mente, incluindo o teu próprio corpo. Como alguns aspectos do budismo ensinam correctamente, a mente que está a pensar tudo é uma mente, e esta mente está completamente fora da ilusão do tempo e do espaço. O que nenhuma filosofia, excepto uma, ensina, é uma verdade que raramente será bem recebida por qualquer pessoa: o facto de esta mente ser também uma ilusão.

Deve ser evidente que, se existe apenas unidade, tudo o resto que pareça existir tem de ser inventado. Além disso e isto é uma questão para a qual até muito recentemente nenhum ensinamento forneceu o motivo de forma satisfatória deve ter sido inventado por aquilo que parecia o raio de uma boa razão. Assim, em vez de julgares o mundo e tudo o que existe nele, talvez te seja útil perguntares que valor é que lhe viste quando o inventaste. Também é capaz de ser sensato perguntares a ti próprio qual seria agora a resposta mais apropriada a isso.”

In “E o universo desaparecerá” de Gary R. Renard

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