Monday, July 05, 2010

Cântico dos Cânticos - O Mistério do Amor

1 Título - O mais belo cântico de Salomão.

Beijos

A amada: Beija-me com os beijos da tua boca!
Os teus amores são melhores do que o vinho,
o odor dos teus perfumes é suave,
o teu nome é como óleo perfumado a escorrer,
e as donzelas enamoram-se de ti...

Arrasta-me contigo, corramos!
Leva-me, ó rei, aos teus aposentos,
e exultemos! Alegremo-nos em ti!
Mais que ao vinho, celebremos os teus amores!
Com razão se enamoram de ti...

Busca e galanteio

A amada: Sou morena, mas formosa,
ó filhas de Jerusalém,
como as tendas de Cedar
e os pavilhões de Salma.
Não repareis na minha tez morena:
foi o sol que me queimou.
Os filhos da minha mãe
Voltaram-se contra mim,
Obrigaram-me a guardar as vinhas,
e a minha vinha, a minha...
não a pude guardar.
Avisa-me, amado da minha alma,
onde apascentas e fazes descansar
o rebanho ao meio-dia,
para que eu não ande vagueando perdida
entre os rebanhos dos teus companheiros.

Coro: Se não o sabes,
ó mais bela das mulheres,
segue o rasto das ovelhas
e leva as cabras a pastar
junto das tendas dos pastores.

O amado: Minha amada,
eu comparo-te
à égua atrelada ao carro do Faraó!
Que beleza as tuas faces entre os brincos,
o teu pescoço, com colares!
Faremos para ti brincos de ouro
cravejados de prata.

Dueto: - Enquanto o rei está no seu divã,
o meu nardo difunde seu perfume.
Um saquinho de mirra
é para mim o meu amado,
repousando entre os meus seios.
O meu amado é para mim
um cacho de cipro florido
entre as vinhas de Engadi.
- Como és bela, minha amada,
como és bela!...
Os teus olhos são pombas.
- Como és belo, meu amado,
e que doçura!
O nosso leito é todo relva.
-As vigas da nossa casa são de cedro,
e seu tecto, de cipreste.

2 - Sou um narciso de Saron,
uma açucena dos vales.
- Como açucena entre espinhos
é a minha amada entre as donzelas.
- Macieira entre as árvores do bosque,
é o meu amado entre os jovens;
à sombra dele eu quis sentar-me,
com o seu doce fruto na boca.
Ele levou-me à adega,
e contra mim desfralda
a sua bandeira de amor.
Sustentai-me com bolos de passas,
dai-me forças com maçãs, oh!
que estou doente de amor...
A sua mão esquerda
está sob a minha cabeça,
e com a direita ele me abraça.
- Filhas de Jerusalém,
pelas corças e gazelas do campo,
eu vos conjuro:
não desperteis, não acordeis o amor,
até que ele o queira!

Primavera

A amada: A voz do meu amado!
Ei-lo que vem correndo pelos montes,
saltitando pelas colinas!
O meu amado é como um gamo,
um filhote de gazela.
Ei-lo postando-se
atrás da nossa parede,
espiando pelas grades,
espreitando pela janela.
O meu amado fala, e diz-me:
«Levante-se, minha amada,
formosa minha, vem!
Eis que o inverno já passou!
A chuva já se foi!
As flores florescem na terra,
o tempo da poda está a chegar,
e o canto da rola
já se ouve nos nossos campos.
Despontam figos na figueira
e a vinha florida exala perfume.
Levanta-te, minha amada,
formosa minha, vem!
Pomba minha,
que te aninhas nos vãos do rochedo,
nas fendas dos barrancos...
Deixa-me ver a tua face,
deixa-me ouvir a tua voz,
pois a tua face é tão formosa
e tão doce a tua voz!»
Agarrai as raposas,
as raposas pequeninas
que devastam as nossas vinhas,
as nossas vinhas já floridas!...
O meu amado é meu e eu sou dele,
do pastor das açucenas!
Antes que a brisa sopre
e as sombras desapareçam,
volta! Sê como um gamo, amado meu,
um filhote de gazela
pelas montanhas de Beter.

Busca nocturna

3 No meu leito, pela noite,
procurei o amado da minha alma.
Procurei e não o encontrei!
Vou levantar-me,
vou rondar pela cidade,
pelas ruas, pelas praças,
procurando o amado da minha alma...
Procurei e não o encontrei!...
Encontraram-me os guardas
que rondavam a cidade:
«Vistes o amado da minha alma?»
Passando por eles, contudo,
encontrei o amado da minha alma.
Agarrei-o, e não vou soltá-lo,
até o levar à casa da minha mãe,
ao quarto daquela que me trouxe no seio.

O amado: Filhas de Jerusalém,
pelas corças e gazelas do campo,
eu vos conjuro:
não desperteis, não acordeis o amor,
antes que ele o queira!

Dia do casamento

Coro: Que é isso que sobe do deserto,
como colunas de fumo
perfumado com incenso e mirra,
e perfumes dos mercadores?
É a liteira de Salomão!
Sessenta soldados a escoltam,
soldados escolhidos de todo o Israel.
São todos treinados na espada,
provados em muitas batalhas.
Vêm todos cingidos de espada,
temendo surpresas noturnas.
O rei Salomão
fez para si uma liteira
com madeira do Líbano,
colunas de prata,
encosto de ouro
e assento de púrpura,
e o interior é embutido de ébano.
Ó filhas de Sião,
vinde ver
o rei Salomão,
com a coroa que lhe pôs sua mãe
no dia do casamento,
dia em que seu coração
se enche de alegria.

Revelação da beleza feminina

4 O amado: Como és bela, minha amada,
como és bela!...
São pombas
Os teus olhos escondidos sob o véu.
O teu cabelo... um rebanho de cabras
ondulando nas encostas de Galaad.
Os teus dentes... um rebanho tosquiado
subindo após o banho,
cada ovelha com seus gêmeos,
nenhuma delas sem cria.
Os teus lábios são fita vermelha,
a tua fala melodiosa.
Metades de romã são os teus seios
mergulhados sob o véu.
O teu pescoço é a torre de David,
construída com defesa:
dela pendem mil escudos
e armaduras dos heróis.
Os teus seios são dois filhotes,
filhos gêmeos de gazela,
pastando entre açucenas.

Antes que sopre a brisa
e as sombras se desapareçam,
vou ao monte da mirra,
à colina do incenso.
És bela, minha amada,
e não tens um só defeito!

Vem do Líbano, noiva minha,
vem do Líbano
e entra comigo.
Desce do alto do Amaná,
do cume do Sanir e do Hermon,
esconderijo de leões,
montes onde rondam as panteras.

Roubaste o meu coração,
minha irmã, noiva minha,
roubaste o meu coração
com um só dos teus olhares,
uma volta dos colares.
Como os teus amores são belos,
minha irmã, noiva minha.
Os teus amores são melhores que o vinho,
e mais fino que os outros aromas
é o odor de seus perfumes.
Os teus lábios são favo de mel a escorrer,
ó noiva minha.
Tens leite e mel sob a língua,
e o perfume dos teus vestidos
é como a fragrância do Líbano.

És um jardim fechado,
minha irmã, noiva minha,
um jardim fechado,
uma fonte lacrada.
Os teus rebentos são pomar de romãzeiras
com frutos preciosos:
nardo e açafrão,
canela, cinamomo
e árvores todas de incenso,
mirra e aloés,
e os mais finos perfumes.
A fonte do jardim
é poço de água viva
que jorra, descendo do Líbano!

A amada: Desperta, vento norte!
Aproxima-te, vento sul!
Soprai no meu jardim
para espalhar os vossos perfumes.
Entre o meu amado no seu jardim
e coma de seus frutos saborosos!

5 O amado: Já entrei no meu jardim,
minha irmã, noiva minha,
colhi a minha mirra e o meu bálsamo,
comi o meu favo de mel,
bebi o meu vinho e o meu leite.
Comei e bebei, companheiros,
embriagai-vos, meus caros amigos!

Revelação da beleza masculina

A amada: Eu dormia,
mas o meu coração velava,
e ouvi o meu amado que batia:
«Abre, minha irmã, minha amada,
pomba minha sem defeito!
Tenho a cabeça orvalhada,
os meus cabelos gotejam orvalho!»
«Já despi a túnica,
e vou vesti-la de novo?
Já lavei os meus pés,
e vou sujá-los de novo?»
O meu amado mete a mão
na fenda da porta:
as entranhas estremecem-me,
a minha alma, ao ouvi-lo, desmaia.
Ponho-me de pé
para abrir ao meu amado:
as minhas mãos gotejam mirra,
os meus dedos são mirra a escorrer
na maçaneta da fechadura.

Abro a porta ao meu amado,
mas o meu amado já se tinha ido...
Procuro-o, mas não o encontro.
Chamo-o, e não me responde...
Encontraram-me os guardas
que rondavam a cidade.
Bateram-me, feriram-me
e tomaram-me o manto
as sentinelas das muralhas!

Filhas de Jerusalém,
eu vos conjuro:
se encontrardes o meu amado,
que lhe direis?... Dizei-lhe
que estou doente de amor!

Coro: Que é que o teu amado é mais que os outros,
ó mais bela das mulheres?
Que é que o teu amado é mais que os outros,
para que assim nos conjures?

A amada: O meu amado é branco e rosado
e destaca-se entre dez mil.
A sua cabeça é ouro puro,
uma copa de palmeira os seus cabelos,
negros como o corvo.
Os seus olhos... são pombas
à beira de águas correntes:
elas banham-se no leite
e repousam na margem.
As suas faces são canteiros de bálsamo,
colinas de ervas perfumadas.
Os seus lábios são lírios
com mirra que flui
e se derrama.
Os seus braços são torneados em ouro
incrustado com pedras de Társis.
O seu ventre é um bloco de marfim
cravejado de safiras.
As suas pernas, colunas de mármore
apoiadas em bases de ouro puro.
O seu aspecto é o do Líbano
altaneiro, como um cedro.
A sua boca é muito doce...
Todo ele é uma delícia!
Assim é o meu amigo,
assim o meu amado,
ó filhas de Jerusalém.

6 Coro: Onde anda o teu amado,
ó mais bela das mulheres?
Aonde foi o teu amado?
Nós vamos procurá-lo contigo!
A amada: O meu amado desceu ao seu jardim,
aos terrenos dos balsameiros.
Foi pastorear nos jardins
e colher açucenas.
Eu sou do meu amado,
e o meu amado é meu,
o pastor das açucenas.

Uma só é a minha amada

O amado: És bonita, minha amiga,
és como Tersa,
formosa como Jerusalém.
Tu és terrível como esquadrão
com bandeiras desfraldadas.
Afasta de mim os teus olhos,
que os teus olhos me perturbam!
O teu cabelo é um rebanho de cabras
ondulando nas encostas de Galaad.
Os teus dentes... um rebanho tosquiado
subindo após o banho,
cada ovelha com seus gémeos,
nenhuma delas sem cria.
Metades de romã são os teus seios
Por detrás do véu.
Sejam sessenta as rainhas,
e oitenta as concubinas,
e as donzelas... sem conta:
uma só é a minha pomba
sem defeito,
uma só a preferida
pela mãe que a gerou.
Vendo, as jovens felicitam-na,
e rainhas e concubinas a louvam:
«Quem é esta que desponta
como aurora,
bela como a Lua,
fulgurante como o Sol,
terrível como esquadrão
com bandeiras desfraldadas?»
Desci ao jardim das nogueiras
para ver os rebentos dos vales,
para ver se a videira florescia,
se os botões das romãzeiras se abriam,
e, sem saber como, vi-me sentada
no carro, com o meu príncipe!

Dança e êxtase

Coro: 7 Vira-te, vira-te,
Sulamita.
Vira-te, vira-te...
queremos contemplar-te!

Sulamita: «Que vedes na Sulamita,
quando ela baila entre dois coros?»

O amado: Os seus pés...
como são belos nas sandálias,
ó filhas de nobres!
As curvas dos seus quadris,
que parecem colares,
obras de um artista.
O seu umbigo... essa taça redonda
onde o vinho nunca falta.
O seu ventre, monte de trigo
rodeado de açucenas.
Os seus seios, dois filhinhos,
filhos gémeos de gazela.
O seu pescoço, uma torre de marfim.
Os seus olhos, as piscinas de Hesebon
junto às portas de Bat-Rabim.
O seu nariz, como a torre do Líbano
voltada para Damasco.
A sua cabeça que se alteia como o Carmelo,
e os seus cabelos cor de púrpura,
prendendo um rei nas tranças.

Como és bela,
como és formosa,
que amor delicioso!
Tens o porte da palmeira,
e os teus seios são os cachos.
E eu pensei: «Vou subir à palmeira
para colher dos seus frutos!»
Sim, os teus seios são cachos de uva,
e o sopro das tuas narinas perfuma
como o aroma das maçãs.
A tua boca é um vinho delicioso
que se derrama na minha,
molhando-me lábios e dentes.

O caminho do amor

A amada: Eu sou do meu amado,
o seu desejo trá-lo para mim.
Vem, meu amado,
vamos ao campo,
vamos pernoitar debaixo dos cedros,
madrugar pelas vinhas.
Vamos ver se a vinha floresce,
e se os botões se estão abrindo,
se as romãzeiras estão a florir:
aí te darei o meu amor...
As mandrágoras exalam o seu perfume;
à nossa porta há toda a espécie de frutos:
frutos novos, frutos secos,
que eu guardei para ti,meu amado.

8 Quem me dera que fosses meu irmão,
Amamentado-me aos seios de minha mãe!
Encontrando-te lá fora, beijar-te-ia,
sem ninguém me desprezar.
Eu levar-te-ia e far-te-ia entrar
na casa de minha mãe,
e tu me iniciarias.
Dar-te-ia a beber vinho perfumado
e licor das minhas romãzeiras.

A sua mão esquerda
está sob a minha cabeça,
e a sua direita abraça-me.

O amado: Filhas de Jerusalém,
eu vos conjuro:
não desperteis, não acordeis o amor,
antes que ele o queira!

O mistério do amor

Quem é esta que sobe do deserto
apoiada no seu amado?
Eu te despertarei debaixo da macieira,
onde a tua mãe te concebeu,
concebeu e deu à luz.

A amada: Grava-me,
como selo no teu coração,
como selo nos teus braços;
pois o amor é forte, é como a morte!
Cruel como o abismo é a paixão.
As suas chamas são chamas de fogo,
uma faísca de Javé!
As águas da torrente jamais poderão
apagar o amor,
nem os rios afogá-lo.
Se alguém quisesse dar tudo o que tem
para comprar o amor...
seria tratado com desprezo.

APÊNDICES

O amor não tem preço

A nossa irmã é pequenina
e ainda não tem seios.
Que faremos à nossa irmãzinha,
quando vierem pedi-la?
Se ela é muralha,
nela faremos ameias de prata.
Se ela é uma porta,
nela poremos pranchas de cedro.
Eu sou muralha
e os meus seios são torres;
aos olhos dele, porém, sou
a mensageira da paz.
Salomão tinha uma vinha
em Baal-Hamon:
deu a vinha aos rendeiros
e do fruto dela cada um lhe traz
mil moedas de prata.
A minha vinha é só minha.
Sejam para ti, Salomão, as mil moedas,
e duzentas para os que guardam o fruto dela.

O amor não tem fim

Ó tu que habitas nos jardins,
os meus amigos te ouvem atentos:
faz-me ouvir tua voz!
Foge, meu amado,
corre como o gamo,
como um filhote de gazela
pelos montes perfumados...”

0 Comments:

Post a Comment

<< Home